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Teatro


"Porto S. Bento" chega ao teatro Carlos Alberto na quinta-feira


A peça "Porto S. Bento" que tem como cenário uma estação de metro e cruza atores profissionais com amadores, ficção com realidade, estreia na quinta-feira no Teatro Carlos Alberto, no Porto.

foto RICARDO JÚNIOR/GLOBAL IMAGENS

O encenador Nuno Cardoso afirma que continuava a ter vontade de regressar ao Porto como matéria de teatro, depois da experiência com "Porto Monocromático" e os Visões Úteis, em 1997. "Sempre pensei que para reencontrar o Porto não ia lá só com autores profissionais", lembrou. Para a peça acabou por reunir 18 atores, entre profissionais e amadores que foram encontrados em workshops de captação, em julho e setembro.
A ideia inicial para a peça foi buscá-la ao seu dia-a-dia: "Ainda não tenho carta de condução e por isso passo a vida nos transportes públicos, especialmente no metro, e fico muito tempo a olhar para as pessoas do outro lado do cais. E naqueles cinco minutos em que estão à espera do metro passa-lhes tudo pela cara, a alegria a tristeza, os problemas, a raiva, a bonomia e, o que é incrível, é que as pessoas que estão ao lado delas nada vêm".
Para o encenador este momento pareceu-lhe "uma espécie de metáfora do que é a cidade, em que há tanta coisa e há coisas tão sozinhas". Partindo das experiências dos atores, com improvisações e jogos teatrais, acabou por construir-se o enredo. "Aquilo que eu perguntei a cada um é o que é que estes cinco minutos de espera querem dizer e o que é que aconteceria se as pessoas olhassem umas para as outras", explicou Nuno Cardoso.
O resultado, acrescenta, "é uma sequência de cerca de uma hora e um quatro mas que, no fundo, é a expansão de cinco minutos de espera, até ao metro para o Hospital de São João ou para Santo Ovídio chegar".
A estação está montada no centro do espaço, com os espetadores sentados de cada um dos lados, e é por ela que, segundo Nuno Cardoso, passam entre outros personagens, a " senhora 'desmaquilhada' que antes do café e do cigarro não funciona bem, o tenista, que foi bancário e que tem muita raiva da situação da situação atual - é o John MacEnroe -, a senhora fadista que tem uma casa muito bonita, mas que tinha um marido que lhe batia, e canta agora "A Casa Portuguesa..."
Escolheu São Bento porque foi a essa estação de comboio que chegou, quando se mudou de Coimbra para o Porto, em 1994. E logo ali lhe aconteceram três coisas que o fizeram gostar da cidade. "Primeiro cuspiram-me nas botas, depois saí e confundi a torre da Câmara com a Torre dos Clérigos, perguntei a uma senhora e ela chamou-me 'morcão' e depois sentei-me no Embaixador, pedi um 'café se faz favor' e o empregado respondeu-me 'se faz favor não que é o meu trabalho' e isto numa sequência de 20 minutos. A partir foi como um anzol, fiquei apanhado por isto".
Para a peça acabou por preferir o espaço da estação do metro com o mesmo nome. "O metro com o seu ar 'clean' é quase anatómico em relação às figuras dos outros, é um 'passepartout' perfeito, cinematográfico".
Para além do resultado das improvisações Nuno Cardoso só integrou excertos de dois textos bíblicos, os livros de Eclesiastes e das Lamentações. O primeiro, afirmou por ter muito " a ver com a filosofia contemporânea, de que tudo se repete porque é que as pessoas não falam, porque é que as pessoas não vêm as coisas". As Lamentações porque foram "escritas no tempo em que o povo judeu está sequestrado na Babilónia e reflete a queda da cidade, que ali tem a amplitude da queda da identidade".
O resultado final desta "Porto S. Bento", que estará em cena até 28 de outubro, não podia deixar de refletir os tempos difíceis que passamos, admitiu o encenador. "Obviamente que neste momento, sentado no cais, tu vês, por detrás de uma aparente normalidade, o esboroar de uma cidade. Não é a cidade Porto, é a nossa comunidade que, de repente, tem a sua identidade completamente vergada e vilipendiada por quem a administra, por quem deveria ser a sua figura de proa, por quem deveria ser o seu defensor e servidor máximo. Não se pode escapar a isso e mesmo que eu quisesse escapar a isso eles, os atores, não deixavam. Mas também não se pode não ter esperança".


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